Biografia

Cresci ouvindo Roberto Carlos.

Eram dezenas de discos, descarregados um a um na (hoje) antiga vitrola. Quando acabava o Lado A, minha mãe virava aquele punhado de discos e lá se ia o Lado B de todos.

Era o ritual do final de semana, que incluía o clube, as brincadeiras debaixo do bloco e pela quadra inteira, o almoço caprichado e o macarrão no domingo.

Passei a meninice ouvindo Nossa Canção.
Meu pai cantava essa música pra minha mãe sempre que viajava a serviço e antes.

Ele morava em Pirassununga, na Vila Militar da Base Aérea e trabalhava com um Tio meu, na Aeronáutica.

Minha mãe, numa das viagens pra visitar a irmã, conheceu aquele sujeito galanteador e boêmio, que vivia cantando e lhe fazendo serenatas.

Começaram a namorar, apesar da distância, já que ela morava em Goiânia.

Depois disso, foi tudo muito rápido. O tempo entre namoro, noivado e casamento durou menos que 30 encontros.

E, para coroar um amor que seria pra sempre, casaram-se no dia do aniversário do meu pai – em 12 de julho de 1968.

Assim, minha mãe se mudou para Pirassununga, onde um ano e meio após o casamento, nasceu Ricardo – meu irmão lindo e loiro.

Os três foram para o Rio de Janeiro, onde quase nasci.

Mas quisera o destino que eu nascesse em Salvador, Itapuã – onde ficava o Hospital da Base Aérea.

De Salvador pra Brasília passaram-se quase 4 anos, o suficiente pra eu ter, durante toda a infância, um sotaque baiano pra lá de carregado e uma velocidade impressionante na fala – o que me rendeu o apelido de “baiana louca” na infância na quadra da minha infância, a 214 Sul.

Depois de quatro anos em Brasília, quase fomos pra Fernando de Noronha, mas não rolou.

Meu pai morreu antes de ser transferido.

E jamais pisei naquela ilha.

Enfim, talvez hoje eu fosse uma pessoa diferente.

E, ao falar dos meus pais, tios e irmão, monto minha biografia.

Porque sou a soma de várias pessoas, de várias influências, de diversos sentimentos.

Sou plural, porque nunca me contentei com o pouco singular.

E, assim, começo minha cronologia:
Nasce, sob o signo de peixes, numa carnavalesca madrugada de sábado, em Salvador – Bahia. Filha de Mãe professora e Pai militar (da aeronáutica). As combinações astrais resultaram no posterior romantismo da raiz dos cabelos até as unhas dos pés? Ou teria sido a influência familiar?

Fábula

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Conta uma antiga fábula que um camundongo vivia angustiado com medo do gato. Um mágico teve pena dele e o transformou em gato.
Mas aí ele ficou com medo de cão, por isso o mágico o transformou em cão.
Então ele começou a temer a pantera e o mágico o transformou em pantera.
Então ele começou a temer os caçadores. A essa altura o mágico desistiu.
Transformou-o em camundongo novamente e disse:
– Nada que eu faça por você vai ajudá-lo, porque você tem apenas a coragem de um camundongo. É preciso coragem para romper com o projeto que nos é imposto. Mas saiba que coragem não é a ausência do medo; é sim, a capacidade de avançar, apesar do medo; caminhar para frente e enfrentar as adversidades, vencendo os medos…

É isto que devemos fazer. Não podemos nos derrotar, nos entregar por causa dos medos. Assim, jamais chegaremos aos lugares que tanto almejamos em nossas vidas!

 

 

A ferrugem e o arame farpado

 

Um dia, percorrendo o perímetro de sua propriedade, você percebe um ponto de ferrugem no arame farpado.arame+farpado+245

O que você faz?

Bom, com certeza, muitos de nós correremos para resolver o problema. Pegaremos as ferramentas necessárias, lixaremos o ponto de ferrugem, passaremos óleo removedor (solvente, WD-40 ou o que for), trabalharemos para eliminar aquele foco antes que tome conta de toda a cerca.

E muitos de nós não faremos nada. Por desconhecimento, por apatia, por falta de estímulo, por comodismo, por inaptidão ou por um sem número de motivos. E, assim, num belo dia, haverá somente um amontoado de pó, pois a ferrugem terá comido todo o arame que protege sua propriedade. E a deixará aberta aos mais diversos perigos e invasões.

Agora, imaginemos a depressão como um ponto de ferrugem numa cerca de arame farpado. Mas antes de incentivar a visualização, é preciso esclarecer algo: Depressão não é tristeza, não é melancolia. Depressão é a falta de energia para fazer qualquer coisa. É a falta de energia para seguir com a sua vida.

O que não quer dizer que você seja um suicida. Não necessariamente. Mas o fato é que você pode sentir, sim, vontade de sumir do mapa. Subtrair aquela dor que você sente não ter forças para tratar.

A primeira vez que notei o ponto de ferrugem em minha cerca foi em 1995, morando longe de casa, aos vinte e poucos. Bastante difícil lidar com aquele amontoado de pó, quando se é uma pessoa expansiva, conhecida pelo bom humor e riso fácil.

Sem me aprofundar em questões filosófico-religiosas, acredito que a depressão fragmenta a alma. E aqui, retomo a já narrada* solução adotada pela minha mãe, que adora pegar vasos, estátuas, jarros quebrados e colar, reparar, restaurar, consertar… Se quebrou e vale a pena, a gente conserta, cola e repara. Com ouro e prata, pra valer mais.

E, assim, sigo remendando minha alma sempre que preciso. Trabalho árduo e contínuo esse de lixar, limpar, passar óleo…

 

Aline Fagundes

 

* Descrito em Kintsukuroi do (livro) Relicário: “Reparar com ouro, usando a arte do Kintsukuroi, que é uma técnica Japonesa de reparar cerâmicas quebradas com uma mistura de ouro e prata. Esta restauração parte do princípio de que merece o melhor e pode ser mais belo e precioso, aquilo que já foi quebrado”.

Panegírico

Aspas.
Escritor, enfermeiro, militar, goleiro, músico, humorista, e colunista. Além de pai, marido, filho, irmão e amigo.
Intenso.
E viveu intensamente os seus quase 40 anos – morreu faltando pouco menos de dois meses para o aniversário.

Escritor de um livro não publicado. Enfermeiro e militar da Aeronáutica. Goleiro de um time de irmãos de armas. Músico, humorista e colunista de todos os eventos e festas que frequentava.10347395_796235333734003_958770504893293433_n
Ele, por si só, era um evento. Divertido, exagerado, dramático…
Seria pisciano, não fosse taurino.

Mesmo conhecendo alguns de seus defeitos, reservo-me ao direito de guardar somente suas qualidades.

É interessante o amor que nos une.
Sinto sua falta, é claro. Mas é como se ainda estivesse aqui – ou talvez esteja.
Perdoem a comparação, mas é como um membro do corpo que foi amputado e você o continua sentindo.
Não é vazio. Não é ausência. É somente uma presença diferente.
Uma presença que – como outras – você acaba se acostumando.
Não fica menor. Não fica maior. Apenas fica.
Se você souber lidar com ela…

E lá se vão 33 anos.

Ainda que a gente não saiba para onde olhar pra te encontrar, o amor continua sempre. Pra sempre.

Fecha aspas.
Aline Fagundes

Festas dentro de mim

Costumo dizer que sou feliz, mesmo quando não estou feliz.
Tropeço, quando penso não ter ninguém olhando,
naquele instante em que tento esconder preocupações cotidianas.capa02

Mas você me olha e eu abro um sorriso.
Porque seu semblante me deixa mais feliz.

Entenda, é que eu já passei por muita coisa.
O sorriso que te sorrio, é acúmulo de felicidade vivida.
As lágrimas que por vezes caem, trazem várias dores já sofridas.

Nem os olhos com os quais te enxergo são novos. Novo é olhar que lanço pra você a cada encontro. Porque é como se te olhasse pela primeira vez. E me apaixonasse um pouco mais a cada dia.

E sigo, mesmo em quarta-feira de cinzas, fazendo festas pra você dentro de mim.

Aline Fagundes In: Relicário

Escrever

Um escritor é um escritor não porque escreve bem e com facilidade, ou porque tem um talento incrível ou porque tudo que faz é ouro. Um escritor é um escritor porque, mesmo quando não há esperança, mesmo quando nada o que faz mostra qualquer sinal de promessa, continua escrevendo mesmo assim.

Junot Diaz, escritor dominicano, radicado nos EUA, vencedor do Pulitzer de Ficção em 2008

Sua Estupidez

Somente ontem assisti o especial do RC.
E tive uma grata surpresa ao ouvir Sophie Charlotte cantando Sua Estupidez. Quanta doçura!
A voz do Alexandre Nero é bem bonita, mas ele estava muito empolgado e o seu afastar de microfone pra “dosar a voz” me pareceu um tanto descontrolado.
Mas não vim falar dele.
Nem dela, na verdade.
“Sua Estupidez” foi gravada, pela primeira vez, em 1969. No primeiro de uma longa série de discos sem título, o artista ilustra solidão e tristeza na capa em que repousa abandonado numa praia vazia e, principalmente, em algumas das baladas mais desesperadas de sua história. Amplificando a linha soul que domina o disco, RC lança Tim Maia, autor do funk da pesada “Não Vou Ficar”. Nesse mesmo LP tem “As Curvas da Estrada de Santos”, “Sua Estupidez”, “As Flores do Jardim de Nossa Casa”.
Em 1971 foi a vez de Gal Costa gravá-la. E é essa versão que acho fantástica!
Para o meu paladar, melhor até que a (re)gravação belíssima do Acústico MTV, de 1997.
Eu não era nascida por ocasião das duas mais famosas gravações dessa música – a original, do Roberto e a arrasa quarteirão, da Gal.
Mas lembro, como se fosse hoje, de como me sentia quando eu e minha prima escutávamos as fitas K7 em seu quarto. Ou quando a escutava lá em casa – naquelas intermináveis manhãs de sábado ouvindo a vitrola tocar, disco após disco, toda a coleção do RC.
Gostava, particularmente, a maneira como a palavra “estupidez” era entoada.
E olhe que aos 7 anos esse tipo de letra não quer dizer muita coisa, né?!
Mas sempre me tocou a danada da música.
Conheci várias outras versões, mas a da Gal (de 71’) continua imbatível!

Sem compasso de espera

Houve um tempo em que achei que ficar “sentada à beira do caminho”,
esperando um amor ausente voltar era o melhor que o universo planejava para mim.
Por tempo demais permaneci nesta espera.
Por vezes, meu coração dava sinais de cansaço e dizia: é melhor deitar e dormir.
Era como se, ao adormecer o sentimento, o vazio se aquietasse também.
Por vezes, meu coração dava sinais de vida e dizia: vamos viver!
Nestes momentos, eu quase me permitia singrar novos mares, mergulhar em outros oceanos.
Até que algo disparava dentro de mim.
Um alarme.
Um estrondo.
E o que nem chegava a ser vontade, minguava sob a sombra da “espera”.
Até você aparecer.

Crise de “Identidade”

Lá estava eu, de frente para o S2 Bruno, requerendo a 2ª via da minha carteira de identidade militar.

Todos os documentos necessários checados, chegara o momento de prestar as informações de controle.

São muitas informações, claro – a burocracia militar é um pouco mais ampla que a civil.

Eles pedem pra levar uma foto 3×4, mas o “buraquinho” é 2×2.

“Óquei”, minha foto não vai servir… (mas pode tirar na hora e a senhora escolhe qual usar).

A maioria das perguntas não causa danos, nem dúvida. Tranquilo, tranquilo.

Até que começa o meu calvário.

S2: Local de nascimento é Salvador mesmo?

Eu: Ahã. Salvador.

S2: Cor?

Eu: Olha, tenho problemas com essa resposta. Na certidão de nascimento está “Branca”, mas…

(ele tira os olhos da tela, me olha, volta a olhar a tela)

S2: Vou colocar “Parda”, ta?

Eu: Ahã. Parda.

S2: Cor dos cabelos?

Eu: Amiguinho, isso só se pergunta pra homens e olhe lá.

(ele ri, olha para os cabelos e faz cara de dúvida)

S2: Coloco que cor?

Eu: Castanhos

S2: Religião?

Eu: Espírita

(ele me olha, com a cabeça levemente inclinada pro lado direito)

S2: Não é seita?

(eu respiro, aperto levemente os olhos, faço um meio sorriso)

Eu: Coloca Católica.

(ele digitando, pronunciando as sílabas)

S2: Católica

Eu: Ahã. Católica.

(ele vira a tela pra mim)

S2: Confere, por favor.

(eu conferindo atentamente cada informação prestada)

Eu: Óquei.

S2: Tudo certinho?

Eu: Ahã. Certinho.

 

E saio sorrindo e pensando no que iria escrever logo mais.

Malas prontas

Não sei se é a regra para quem viaja muito, mas sempre preferi marcar o assento do corredor.

Agonia de ficar dependendo de outra pessoa, deve ser.capa02

Mas a sensação de ter que pedir licença pra se levantar me deixa louca.

Pense num vôo de 10, 12, 14 horas em que a pessoa ao seu lado tomou Dramin ou Rivotril?

E você ali, querendo esticar as pernas – na melhor das hipóteses.

Só que pode acontecer de você ter problemas para marcar o assento ao comprar o “pacote”.

Foi o que aconteceu comigo. Tentei todos os dias, por dois meses, marcar meu tão almejado corredor e nada. Sistema indisponível.

Ao realizar o check in na Turkish Airlines, em Guarulhos, a atendente – gentilmente – me alocou na Janela nos dois vôos.

Eu poderia ter me chateado, tomado um Donaren ou outro indutor, mas não.

Assim que vi o assento “A” resolvi me jogar de “peito aberto”.

E vi um nascer do sol belíssimo.

Vi também as areias do deserto do Saara.

Enquanto olhava o deserto, pensava que ali Antoine encontrou – há muito tempo – um pequeno Príncipe. E soube da Rosa. Da raposa. E da cobra.

E, como não existem coincidências, o livro estava ali, na bolsa de minha mãe.

Vi também um pôr-do-sol escandalosamente lindo.

E percebi que estava bem perto de Deus.

maio 2019
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