Arquivo do mês: outubro 2014

Analogia

capa02

E mais um período de férias se aproxima.
Momento de pensar nas listas que tornam minha vida mais prática. Característica do meu lado “louca por controle” – traços de TOC, diria algum psiquiatra.

Lista dos lugares que pretendo visitar –
e a melhor forma de acesso.
Lista do que pretendo trazer –
e as ciladas que não pretendo cair.
Lista do que levarei – roupas, calçados, produtos de higiene etc.

Fazer as malas para uma viagem, por mais curta que seja,
pode ser uma dor de cabeça e tanto.
Nunca temos certeza se falta alguma coisa
ou se estamos exagerando.
Assim como os relacionamentos…

(adoro viajar, mesmo sem sair do lugar)

Aline Fagundes in: Relicário

Qualquer maneira

Pedro e Joana se separaram há quase dois anos. Ele, servidor público do Executivo, ela, professora. Mas não foi sempre assim.
Começaram a namorar quando ela era ainda adolescente. Ele, contínuo contratado, ela estudante.
E foi numa manhã de Natal que resolveram se aventurar. Entraram no Fusca rebaixado e viajaram sem avisar nada pra ninguém. Sem lenço e sem documento – quase literalmente – saíram Goiás afora.
Depois de encontrarem amigos em Pirenópolis, Pedro resolveu trocar o Fusca por uma Tenerê. Perderam a noção do tempo. E, assim, permaneceram 15 dias por lá.
Quando retornaram pra Brasília, já havia uma ocorrência na 24ª DP e Pedro quase partiu dessa para outra sob a mira de um 38 enferrujado. Se não morresse de bala, seria de tétano.
Trouxeram de Piri a família que viriam a formar. Sim, Joana, aos 16, voltou grávida. Alegaram que essa havia sido a forma que encontraram de a família dela aceitar o casamento. De certa forma, deu certo. Pois se casaram na Paróquia da Ressurreição, com parentes de Joana cobrindo as entradas e saídas da igreja.
“Por sorte”, com a promulgação da Constituição Federal, Pedro foi incorporado ao quadro de servidores públicos, como artífice de artes gráficas. E pôde sonhar com uma vida melhor para sua recém formada família. Quando terminou o curso Normal, Joana ingressou na Fundação Educacional e passou a lecionar.
Nem tudo foi fácil, claro. A família aumentou, o salário não. Levaram uma vida sofrida, porém honesta. Volta e meia, Pedro me contava suas presepagens, suas saídas animadas em família, suas viagens de carro para o Piauí. Eles eram bastante diferentes, apesar da convivência tranquila.
Pedro não percebeu que o vão entre eles estava crescendo. Um belo dia, Joana sentiu vontade de “mais”, de “ser mais”. Concluiu Pedagogia, passou em novo concurso público e, alguns anos depois, entrou pra Faculdade cursando Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Língua Inglesa.
Já no final do curso, Pedro me procurou para ajudá-la a terminar o TCC. Ela estava desesperada. Ele mais ainda, tanto que passou a dormir debaixo da escada do sobrado. Da escada passou para a área de serviço. Da área de serviço para a garagem. Até que – prestes a comemorar Bodas de Prata – saiu de casa levando a tristeza e as roupas.
No transcorrer de um ano, morou dentro do carro. Ora estacionado num posto de gasolina perto de casa, ora no estacionamento da UPA do Recanto. Iniciou ali uma descida ao seu inferno pessoal. Tornou-se mais desatento, ácido, ferino. Diria, amargo.
Ontem conversamos um pouco mais. Enumerou suas dores e dissabores nesse período de separação e contou que a alegria dele foi tê-la feito chorar no dia anterior, quando ela o procurou pretendendo uma reconciliação. Em seguida fez silêncio, me olhando. Talvez esperasse que eu fosse condená-lo.
Ao contrário, comentei que achava absolutamente natural essa necessidade de espezinhar o ex-relacionamento, a necessidade de dizer as piores palavras que existem. A raiva faz parte das 5 fases fundamentais do “luto”, mas passa. E que a forma como terminou não deveria mudar sua maneira de lidar com o relacionamento como um todo. Não há vergonha em guardar o que foi bom e esquecer o que machucou. Ajuda na última fase do “luto”, a aceitação.
Ele continuava me olhando em silêncio. Com um esboço de sorriso nos lábios e olhos quase úmidos. Depois de balançar a cabeça em concordância, me contou em alguns minutos a história deles dois – essa que escrevi aqui. Falou também da conversa que tiveram e de como a fez chorar, dizendo que não queria voltar e sequer conversar. Antes de sair ela pediu que ele não mudasse o número do celular e ele prometeu que não o faria. E me disse, com pleno sorriso no rosto, que ainda adorava ouvir sua voz.

Aline Fagundes

Desapego

capa02Algumas pessoas vivem mais apegadas ao passado do que outras.
Isso é fato.
Inconteste!
Mas não posso – simplesmente – falar pra você que quem vive de passado é museu e quem vive de futuro é cartomante.
Respeito seu apego. Entendo, até.
O passado construiu o caminho que te trouxe até aqui.
Que nos trouxe até aqui.
Não deve ficar solapando o presente.
De maneira simplista, porque adoro o simples, o passado deve permanecer no passado.
Como aquele lugar, que por mais aconchegante que seja, você goste de visitar, mas sabe que não é mais seu lar.

É isso: não é mais seu lar.

Aline Fagundes In: Relicário

Síndrome da desilusão político-partidária

Síndrome da desilusão político-partidária

Primeiro foi aquele probleminha de incompatibilidade musical. Enquanto você curtia seus CDs de blues, ele era pagodeiro. E o exercício de tolerância falou mais alto, afinal esse era um pequeno detalhe.
Em seguida, seu coração quase parou ao ler o primeiro bilhete mais longo. Não havia qualquer concordância. Nem nominal, tampouco verbal. Também não existia o R do infinitivo: era um tal de “pra você ve”, “pra eu faze”. E você pensou que podia ser pior: ele poderia usar o “mim” indiscriminadamente.

Você gostava de arte, de maneira ampla. Ele gostava somente de futebol.
Você prezava a pontualidade. Ele te deixava horas esperando.
Você amava viajar e conhecer o mundo. Ele só queria fincar raízes.
Você adorava a tecnologia. Ele sequer acessava o email.
Você militava na “esquerda”. Ele totalmente “reaça” e com saudades da ditadura.
Você favorável ao sincretismo religioso. Ele evangélico.
E, apesar de tudo – porque o amor existe “apesar de” – vocês se casaram.
O tempo foi aparando as arestas das pequenas decepções. E vocês foram aprendendo a relevar as diferenças.
Os debates mais acalorados terminavam em paz e o equilíbrio era restabelecido.

Até que chegaram as eleições.

Foi hercúleo tolerar aqueles tantos “Confrontos” televisionados assistidos lado a lado, mas impossível respeitar a opção de votar naquela caricatura bigoduda do homem excretor.
E foi assim que você passou o dia inteiro guardando os CDs de pagode e canecas do Timão nas caixas que agora entulham seu depósito. Porque de tudo, essa foi a gota d’água.

Aline Fagundes

PS: Conteúdo ficcional.

Apresentação

capa02Se eu partisse hoje para outro plano, o que deixaria para as pessoas que amo?

Não deixaria minha plantação de tomates.
Também não deixaria meu carro zero ou meu cofre com os dólares e euros.
Ninguém herdaria o saldo polpudo da minha conta bancária.
Porque não os tenho.

Nada disso se constitui em minhas prioridades.
Nada disso compõe a minha riqueza.

Sou otimista por natureza. E sempre busco o lado bom de tudo. E, sobretudo, de todos.
Em função disso, em vida, sorri mais do que chorei.
Além do quê, muitas lágrimas foram de alegria.

Por buscar o lado bom de todos, tive a confiança traída algumas vezes.
O que me trouxe as lágrimas já mencionadas. Mas nem por isso perdi a capacidade de amar e de “acreditar”.

Sou absolutamente intensa. Não adianta, o morno não me satisfaz. E mergulho, já falei…
Mesmo que eu quebre a cara no final. No meio. Ou no início.

Distribuo sorrisos e cumprimentos indiscriminadamente – a mim não interessa o uniforme do meu interlocutor.
Eventualmente, o ruído da minha gargalhada faz um passante abrir minha porta para conferir a piada – que nem sempre existe.
Trato todos com o mesmo respeito, a mesma atenção, a mesma educação. Mesmo quando não tem ninguém olhando.

Dificilmente “dou um trocado” pra quem tenta me coagir com a frase: “bem vigiado, aê tia”, enquanto fica sentado à sombra da preguiça.
Mas não nego um prato de comida a quem tem fome.

Aprendi a trabalhar muito bem sob pressão, qualquer que seja ela. E não me furto de abraçar um desafio.
E vejo a vida como um espelho de mim mesma.
O que eu emano – em pensamentos, ações, palavras, estado de espírito, sentimentos – é o que eu recebo de volta. Por isso, mantenho-me limpa – de corpo e alma.

Procuro alimentar o lobo bom dentro de mim, mas nunca tiro os olhos do lobo mau. Ele pode ser tão útil quanto perigoso.
Não ambiciono ser exemplo pra ninguém, por isso não deixaria um livro com fórmulas de felicidade ou regras de conduta.

Posso não ter um pé de tomate pra chamar de meu, mas possuo toda a riqueza desse mundo.

 

Aline Fagundes In: Relicário

Caminhando

Da vida não cobro nada, ao contrário, agradeço por cada passo do meu caminho.
E de caminhar vai se fazendo a vida – num processo contínuo de ir e vir.
E sentir.
E de sentir, vai-se tecendo as trilhas da escrita.
E das palavras, nem sempre faladas, o movimento de transformar as entrelinhas em poesia.
Poesia que se observa nas pequenas coisas, nos pequenos gestos.
O colorido que se extrai da beleza da simplicidade.
Cores que se transformam em letras, vazios, sons e silêncios, que viram – ou voltam a ser? – as letras dos rabiscos.

Por aqui, ando mais um passo do meu caminho
E aqui apresento meus riscos:
Uma forma de me colocar mais perto de você
E de te trazer pra perto de mim.
Bem-vindo, viajante.

Aline Fagundes

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