Arquivo do mês: novembro 2014

Recordações

Não se trata de saudosismo patológico. Não vivo presa no (e ao) passado.
Meu presente é fantástico e tenho certeza de que meu futuro será igualmente sensacional ou bastante melhor.
Mas hoje – sabe-se lá por qual motivo – estava recordando-me das brincadeiras da infância.
Nossa!
Como aproveitei minha infância!
Todos os tipos de “pique” – pique-pega, pique-esconde, pique-bandeira, polícia-e-ladrão – e de brincadeiras com bola – queimada, bete, paredão, alerta, vôlei, peteca nortearam minha meninice.
E a imbatgude2ível destruidora de cutículas: bolinha de gude.
Em frente ao bloco da minha tia, na 214, tinha um “quadradão”, onde brincávamos de queimada e outras coisas.
E ali, na área verde do bloco D, era nosso melhor campo de bolinha de gude. Acabávamos com a grama, debaixo das árvores, com as búlicas (que nome horroroso!).
Quando o polegar feria, de tanto brincar, eu usava o dedo médio e mudava a “pegada”.
Eu era boa nisso! Normalmente, jogávamos “à brinca”, mas noutras vezes, era “à vera” e com isso ganhei muuuuuuuitas bolinhas.
No mesmo citado “quadradão”, brincando de queimada, enfiei o pé num toco de madeira com um prego enferrujado. É que o “limbo” (esqueci o nome que usávamos) do campo de queimada ficava na grama. Na hora, num reflexo, simplesmente retirei o prego e continuei brincando.
Brincadeira finda, subi pra tomar banho, lanchar e descansar. De noite, a coisa foi ficando ruim… Alguma febre e dor no pé. E minha mãe correu comigo para o HFA, onde meu pai já estava internado. Precisei tomar algumas injeções. E até hoje não sei qual doeu mais.
Lembrei de tudo isso e continuei sorrindo, pensando que o Atari, dos anos seguintes, não chegava nem perto das brincadeiras de rua.

Um doce sabor

O ano era 1994.
Estava morando em São Luís, longe de tudo e de todos. Estudando e trabalhando, conheceu muita gente e fez algumas boas amizades.
Gerenciando um bar e restaurante num Centro Comercial, implementou a “música ao vivo” durante os finais de semana como forma de atrair uma clientela maior e lembrar um pouco da sua cidade, cheia de música.
A coisa pegou. Deu tão certo que ficou encarregada das contratações musicais do “shopping”. Com isso, houve a necessidade de contratar uma equipe de sonorização também. E se encantou por um moço com cara de menino danado. Era o rei do som.
Ele tinha seu charme, com aqueles olhinhos meio puxados e sorriso aberto. Engataram um romance, sem nenhuma possibilidade de sucesso.
Ela não ficaria muito tempo naquela cidade e não queria se envolver. Ele, um tremendo sedutor e galinha de tudo. Talvez por isso, rolava uma enorme cumplicidade e entrega.
Sem amarras, divertido, intenso e, ao mesmo tempo, leve. Aos 21, esse era um excelente tipo de relacionamento.
Durou o tempo suficiente pra ser lembrado com carinho e terminou da maneira que começou: com música.

Depois de um tempo, que não sei precisar, ela se cansou.
Nem tentou conversar, simplesmente lhe dedicou uma música recém-lançada, cantada no palco por um dos grupos contratados. E cantou junto, sorrindo, aquela música do Lulu: “Não vou dizer que foi ruim. Também não foi tão bom assim. Não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais. Não te quero mais. Não mais! Nunca mais!”.
Ele sorriu, com olhos pequenos e entendeu o recado.
A partir daquele dia, deixou um funcionário cuidando do som do shopping. Só se encontravam rapidamente para um acerto de contas ou por acaso nas baladas da cidade.

Ela estava quase voltando pra Brasília, cantando “nesse País, lugar melhor não há”, quando soube que ele estava noivo (?!). E, verdade seja dita, sentiu um leve incômodo no estômago.
Até que outra música fez um sucesso retumbante nas rádios e bares beira-mar. E, mesmo sem vê-la há tempos, passou na porta de sua casa com um carro de som no maior volume tocando o hit do momento: “Hoje é você que está sofrendo amor. Hoje sou eu quem não te quer. O meu coração já tem um novo amor, você pode fazer o que quiser. Você jogou fora o amor que eu te dei, o sonho que sonhei, isso não se faz. Você jogou fora a minha ilusão, a louca paixão. É Tarde demais… Que pena!”
E esperou tempo o bastante para vê-la sorrindo pra ele por trás da janela.

A vingança, em algumas situações, tem um sabor doce.

Qualquer maneira – Atualização

Há pouco mais de um mês escrevi sobre um casal – tecnicamente, ex-casal – “Pedro e Joana”, com base numa conversa com um colega de trabalho. Alterei os nomes para “preservá-los”. Enviei o texto para o “Pedro” no final da tarde (sexta-feira), para que ele soubesse que eu havia escrito sua história.
Confesso que estava com receio de ele se sentir ofendido, invadido e blá blá blá.
Acontece que na segunda-feira eu iniciaria um curso na Esaf, emendando com as férias.
O fato que é o encontrei pela primeira vez pós-texto hoje, no elevador.
Depois de nos cumprimentar, ele perguntou – com lágrimas nos olhos – como eu havia escrito tanta verdade com base nas poucas palavras que ele falou.
Agradeceu, disse que havia gostado muito e que estava muito feliz por eu ter escrito sua história.

Meu “bilhete” pra ele foi assim:

XXX,
Não sei se você sabe, mas sou – também – escritora. Lancei meu segundo livro esse ano.
Escrevi hoje, com base na rápida conversa que tivemos, a minha versão da história de vocês ou, melhor dizendo, um texto inspirado na história de vocês. Claro que coloquei elementos ficcionais pra dar sentido à minha narrativa.
Não se chateie por isso. Sempre busco inspiração nos acontecimentos cotidianos.
Ei-la:

Pedro e Joana se separaram há quase dois anos. Ele, servidor público do Executivo, ela, professora. Mas não foi sempre assim.
Começaram a namorar quando ela era ainda adolescente. Ele, contínuo contratado, ela estudante.
E foi numa manhã de Natal que resolveram se aventurar. Entraram no Fusca rebaixado e viajaram sem avisar nada pra ninguém. Sem lenço e sem documento – quase literalmente – saíram Goiás afora.
Depois de encontrarem amigos em Pirenópolis, Pedro resolveu trocar o Fusca por uma Tenerê. Perderam a noção do tempo. E, assim, permaneceram 15 dias por lá.
Quando retornaram pra Brasília, já havia uma ocorrência na 24ª DP e Pedro quase partiu dessa para outra sob a mira de um 38 enferrujado. Se não morresse de bala, seria de tétano.
Trouxeram de Piri a família que viriam a formar. Sim, Joana, aos 16, voltou grávida. Alegaram que essa havia sido a forma que encontraram de a família dela aceitar o casamento. De certa forma, deu certo. Pois se casaram na Paróquia da Ressurreição, com parentes de Joana cobrindo as entradas e saídas da igreja.
“Por sorte”, com a promulgação da Constituição Federal, Pedro foi incorporado ao quadro de servidores públicos, como artífice de artes gráficas. E pôde sonhar com uma vida melhor para sua recém formada família. Quando terminou o curso Normal, Joana ingressou na Fundação Educacional e passou a lecionar.
Nem tudo foi fácil, claro. A família aumentou, o salário não. Levaram uma vida sofrida, porém honesta. Volta e meia, Pedro me contava suas presepagens, suas saídas animadas em família, suas viagens de carro para o Piauí. Eles eram bastante diferentes, apesar da convivência tranquila.
Pedro não percebeu que o vão entre eles estava crescendo. Um belo dia, Joana sentiu vontade de “mais”, de “ser mais”. Concluiu Pedagogia, passou em novo concurso público e, alguns anos depois, entrou pra Faculdade cursando Letras com habilitação em Língua Portuguesa e Língua Inglesa.
Já no final do curso, Pedro me procurou para ajudá-la a terminar o TCC. Ela estava desesperada. Ele mais ainda, tanto que passou a dormir debaixo da escada do sobrado. Da escada passou para a área de serviço. Da área de serviço para a garagem. Até que – prestes a comemorar Bodas de Prata – saiu de casa levando a tristeza e as roupas.
No transcorrer de um ano, morou dentro do carro. Ora estacionado num posto de gasolina perto de casa, ora no estacionamento da UPA do Recanto. Iniciou ali uma descida ao seu inferno pessoal. Tornou-se mais desatento, ácido, ferino. Diria, amargo.
Ontem conversamos um pouco mais. Enumerou suas dores e dissabores nesse período de separação e contou que a alegria dele foi tê-la feito chorar no dia anterior, quando ela o procurou pretendendo uma reconciliação. Em seguida fez silêncio, me olhando. Talvez esperasse que eu fosse condená-lo.
Ao contrário, comentei que achava absolutamente natural essa necessidade de espezinhar o ex-relacionamento, a necessidade de dizer as piores palavras que existem. A raiva faz parte das 5 fases fundamentais do “luto”, mas passa. E que a forma como terminou não deveria mudar sua maneira de lidar com o relacionamento como um todo. Não há vergonha em guardar o que foi bom e esquecer o que machucou. Ajuda na última fase do “luto”, a aceitação.
Ele continuava me olhando em silêncio. Com um esboço de sorriso nos lábios e olhos quase úmidos. Depois de balançar a cabeça em concordância, me contou em alguns minutos a história deles dois – essa que escrevi aqui. Falou também da conversa que tiveram e de como a fez chorar, dizendo que não queria voltar e sequer conversar. Antes de sair ela pediu que ele não mudasse o número do celular e ele prometeu que não o faria. E me disse, com pleno sorriso no rosto, que ainda adorava ouvir sua voz.

Fim…

Com lágrimas nos olhos e dor no coração, vejo o fim se aproximando…
Todo fim de relacionamento é doído… Mesmo quando sabemos que o final é inevitável.
Acredito que todo relacionamento tem um prazo de validade, que pode ser de 1 dia, um mês, um semestre, um ano, uma década ou um século, mas o prazo está ali – implícito.
E a verdade é que sei que o fim está próximo.
Dói ter essa certeza, mas não tenho como evitar.
Espero te (re)encontrar em breve, num futuro não muito distante, pois meu sentimento por você é sincero e profundo.
E assim, me despeço de você…
Férias, foi ótimo estar com você. Até fevereiro.
Beijos de quem muito te ama.

Vou ali e volto já

Tenho visto com frequência cada vez maior os críticos do “turista”. Recentemente, uma empresa de viagens on line lançou a campanha publicitária: “Não seja um turistão, seja um viajante”. A ideia aqui é evitar que os viajantes se tornem “turistões”, aqueles consumidores que caem em roubadas quando decidem viajar.
Mas qual é a diferença entre turista e viajante?

O escritor chinês Lin Yutang, autor de A Importância de Viver, era um turista e dizia: ‘Ninguém pode compreender a beleza de viajar antes de voltar para casa e repousar sua cabeça em seu velho e familiar travesseiro’.
Jawaharial Nehru, famoso estadista hindu, era um viajante e sentenciava: ‘Vivemos em um mundo maravilhoso, cheio de beleza, charme e aventura. E não há fim para as aventuras que se pode viver. Basta apenas manter os olhos abertos’.

Jessica Lee é uma travel writer especializada em Oriente Médio e trabalha para o guia Lonely Planet. Era dela o artigo (Em defesa da “rota turística”) que estava lendo na hora do almoço. Ela aborda a famosa arrogância do viajante que não se considera um turista (como se houvesse diferença entre uma coisa e outra). A autora, assim como eu, lamenta o “ir para dizer que foi” – a típica viagem de riscar itens famosos da lista, devidamente postados no Instagram. Mas se irrita, na mesma medida, com quem adota como objetivo de vida cultivar uma aversão a qualquer coisa que possa remotamente ser classificada como “atração turística”.

Quem me conhece um pouquinho sabe da minha mania por listas. Antes de viajar (ou turistar?) pesquiso tudo o que preciso saber do destino escolhido. Quais atrações, qual história, o que e onde comer, o que tem de interessante, onde ir – mesmo que não esteja no roteiro comum.

Não tenho medo do ridículo, afinal não sou daquele lugar (Ho ho ho). Não me nego o direito de fingir que estou segurando com as pontas dos dedos a pirâmide de vidro do Louvre, ou colocar a mão dentro de La Bocca della Verità. Tampouco deixo de registrar em foto que estive em cada lugar “famoso” do Globo.

O que não concebo é deixar de fazer isso ou aquilo em função de outrem. Em função da opinião de outrem. Já pensou deixar de fotografar as Pirâmides do Egito só porque fulaninho acha que é “coisa de turista”? Mavá!!!

Turista ou viajante? Tem diferença? Que eu seja os dois. Sem delimitar onde acaba um e onde começa o outro. O que eu gosto, mesmo, é de viajar.

E, assim, me despeço com um “até breve”. Sigo hoje em mais uma aventura. Nos encontramos na volta.

Esse post ficou “pendurado” nos rascunhos. Na verdade, já fui e voltei.

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