Arquivo do mês: julho 2015

A ferrugem e o arame farpado

 

Um dia, percorrendo o perímetro de sua propriedade, você percebe um ponto de ferrugem no arame farpado.arame+farpado+245

O que você faz?

Bom, com certeza, muitos de nós correremos para resolver o problema. Pegaremos as ferramentas necessárias, lixaremos o ponto de ferrugem, passaremos óleo removedor (solvente, WD-40 ou o que for), trabalharemos para eliminar aquele foco antes que tome conta de toda a cerca.

E muitos de nós não faremos nada. Por desconhecimento, por apatia, por falta de estímulo, por comodismo, por inaptidão ou por um sem número de motivos. E, assim, num belo dia, haverá somente um amontoado de pó, pois a ferrugem terá comido todo o arame que protege sua propriedade. E a deixará aberta aos mais diversos perigos e invasões.

Agora, imaginemos a depressão como um ponto de ferrugem numa cerca de arame farpado. Mas antes de incentivar a visualização, é preciso esclarecer algo: Depressão não é tristeza, não é melancolia. Depressão é a falta de energia para fazer qualquer coisa. É a falta de energia para seguir com a sua vida.

O que não quer dizer que você seja um suicida. Não necessariamente. Mas o fato é que você pode sentir, sim, vontade de sumir do mapa. Subtrair aquela dor que você sente não ter forças para tratar.

A primeira vez que notei o ponto de ferrugem em minha cerca foi em 1995, morando longe de casa, aos vinte e poucos. Bastante difícil lidar com aquele amontoado de pó, quando se é uma pessoa expansiva, conhecida pelo bom humor e riso fácil.

Sem me aprofundar em questões filosófico-religiosas, acredito que a depressão fragmenta a alma. E aqui, retomo a já narrada* solução adotada pela minha mãe, que adora pegar vasos, estátuas, jarros quebrados e colar, reparar, restaurar, consertar… Se quebrou e vale a pena, a gente conserta, cola e repara. Com ouro e prata, pra valer mais.

E, assim, sigo remendando minha alma sempre que preciso. Trabalho árduo e contínuo esse de lixar, limpar, passar óleo…

 

Aline Fagundes

 

* Descrito em Kintsukuroi do (livro) Relicário: “Reparar com ouro, usando a arte do Kintsukuroi, que é uma técnica Japonesa de reparar cerâmicas quebradas com uma mistura de ouro e prata. Esta restauração parte do princípio de que merece o melhor e pode ser mais belo e precioso, aquilo que já foi quebrado”.

julho 2015
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