Relicário

Malas prontas

Não sei se é a regra para quem viaja muito, mas sempre preferi marcar o assento do corredor.

Agonia de ficar dependendo de outra pessoa, deve ser.capa02

Mas a sensação de ter que pedir licença pra se levantar me deixa louca.

Pense num vôo de 10, 12, 14 horas em que a pessoa ao seu lado tomou Dramin ou Rivotril?

E você ali, querendo esticar as pernas – na melhor das hipóteses.

Só que pode acontecer de você ter problemas para marcar o assento ao comprar o “pacote”.

Foi o que aconteceu comigo. Tentei todos os dias, por dois meses, marcar meu tão almejado corredor e nada. Sistema indisponível.

Ao realizar o check in na Turkish Airlines, em Guarulhos, a atendente – gentilmente – me alocou na Janela nos dois vôos.

Eu poderia ter me chateado, tomado um Donaren ou outro indutor, mas não.

Assim que vi o assento “A” resolvi me jogar de “peito aberto”.

E vi um nascer do sol belíssimo.

Vi também as areias do deserto do Saara.

Enquanto olhava o deserto, pensava que ali Antoine encontrou – há muito tempo – um pequeno Príncipe. E soube da Rosa. Da raposa. E da cobra.

E, como não existem coincidências, o livro estava ali, na bolsa de minha mãe.

Vi também um pôr-do-sol escandalosamente lindo.

E percebi que estava bem perto de Deus.

Desapego

capa02Algumas pessoas vivem mais apegadas ao passado do que outras.
Isso é fato.
Inconteste!
Mas não posso – simplesmente – falar pra você que quem vive de passado é museu e quem vive de futuro é cartomante.
Respeito seu apego. Entendo, até.
O passado construiu o caminho que te trouxe até aqui.
Que nos trouxe até aqui.
Não deve ficar solapando o presente.
De maneira simplista, porque adoro o simples, o passado deve permanecer no passado.
Como aquele lugar, que por mais aconchegante que seja, você goste de visitar, mas sabe que não é mais seu lar.

É isso: não é mais seu lar.

Aline Fagundes In: Relicário

Apresentação

capa02Se eu partisse hoje para outro plano, o que deixaria para as pessoas que amo?

Não deixaria minha plantação de tomates.
Também não deixaria meu carro zero ou meu cofre com os dólares e euros.
Ninguém herdaria o saldo polpudo da minha conta bancária.
Porque não os tenho.

Nada disso se constitui em minhas prioridades.
Nada disso compõe a minha riqueza.

Sou otimista por natureza. E sempre busco o lado bom de tudo. E, sobretudo, de todos.
Em função disso, em vida, sorri mais do que chorei.
Além do quê, muitas lágrimas foram de alegria.

Por buscar o lado bom de todos, tive a confiança traída algumas vezes.
O que me trouxe as lágrimas já mencionadas. Mas nem por isso perdi a capacidade de amar e de “acreditar”.

Sou absolutamente intensa. Não adianta, o morno não me satisfaz. E mergulho, já falei…
Mesmo que eu quebre a cara no final. No meio. Ou no início.

Distribuo sorrisos e cumprimentos indiscriminadamente – a mim não interessa o uniforme do meu interlocutor.
Eventualmente, o ruído da minha gargalhada faz um passante abrir minha porta para conferir a piada – que nem sempre existe.
Trato todos com o mesmo respeito, a mesma atenção, a mesma educação. Mesmo quando não tem ninguém olhando.

Dificilmente “dou um trocado” pra quem tenta me coagir com a frase: “bem vigiado, aê tia”, enquanto fica sentado à sombra da preguiça.
Mas não nego um prato de comida a quem tem fome.

Aprendi a trabalhar muito bem sob pressão, qualquer que seja ela. E não me furto de abraçar um desafio.
E vejo a vida como um espelho de mim mesma.
O que eu emano – em pensamentos, ações, palavras, estado de espírito, sentimentos – é o que eu recebo de volta. Por isso, mantenho-me limpa – de corpo e alma.

Procuro alimentar o lobo bom dentro de mim, mas nunca tiro os olhos do lobo mau. Ele pode ser tão útil quanto perigoso.
Não ambiciono ser exemplo pra ninguém, por isso não deixaria um livro com fórmulas de felicidade ou regras de conduta.

Posso não ter um pé de tomate pra chamar de meu, mas possuo toda a riqueza desse mundo.

 

Aline Fagundes In: Relicário

agosto 2020
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